Começo por dizer que sou católico, o que não será novidade para quem me lê habitualmente, mas era importante frisar.
Eu tenho assistido há anos a grandes eventos assumidos pelo nosso querido Portugal e para esses eventos tivemos de criar estruturas especificas. E assim vai acontecendo ao longo dos últimos anos. E para todos eles foi envolvido muito dinheiro do povo que a cada momento protestou por isso. Vamos olhando para alguns: Centro Cultural de Belém, Expo-98, Euro 2004, Web Summit (nada se construiu para este) e agora as JMJ-2022. Todos consideraram, e agora consideram, criminosa a “despesa”.
Comecemos pelo CCB que foi construído para assinalar a 1ª Presidência de Portugal na União Europeia. Começou por um custo elevado e acabou por ter uma grande derrapagem, digna de um grande esquiador de slalom. E temos o CCB há 25 anos…a servir Lisboa e a cultura do país! “É uma grande despesa que podia ser utilizada noutras coisas mais úteis” disseram os comentadores. Estes tinham vistas curtas no tempo e hoje beneficiam não daquilo a que chamaram despesa mas sim daquilo que foi um investimento.
Depois temos a Expo-98 e houve um coro de críticos pelos custos faraónicos e incluindo suspeitas de corrupção (ex: navios) e claro está mais uma vez a despesa esteve sempre como uma arma de arremesso. Hoje é provável que alguns dos maldizentes morem ou trabalhem na zona nobre que a Expo-98 ofereceu à capital portuguesa numa área muito degradada até àquele momento. Aquela despesa faraónica, que podia ter sido utilizada noutra coisa mais útil, afinal foi um grandíssimo investimento.
E sobre o Euro-2004 há que dizer que provavelmente os comentadores não seriam tão incisivos se tivéssemos sido campeões europeus. A despesa foi também muito elevada e aqui houve alguns estádios que ficaram como elefantes brancos mas já se disputaram em Lisboa e no Porto finais europeias de clubes cujo retorno se fez sentir. Aqui sou capaz de pensar que a despesa e o investimento se terão equilibrado.
Sobre o Web Summit a coisa é um pouco diferente porque que eu saiba as construções não foram de raiz mas investiram-se uns milhões no “cachet” do organizador. E foram esses milhões que levaram alguns comentadores a criticar a “despesona” que, pelos vistos, foi tão geradora de retorno que o governo fez contrato para repetir. Ou seja a grande despesa foi afinal um investimento.
E agora chegamos aos dias de hoje onde vai faltar a análise no fim do evento porque ele ainda não começou: as JMJ 2022 só serão em Agosto. Mas deixem-me dizer à partida que achei o valor da pala do palco muito fora das expectativas. E, agora sim, apetece-me lembrar que esta despesa elevada poderá ser simplesmente um grande investimento. Olhemos para o aterro que há alguns meses existia na fronteira entre Lisboa e Loures com vista para a Ponte Vasco da Gama e projectemos o que será no futuro. Não venho aqui defender os custos da JMJ 2022 – até porque vai ser feita, e bem, uma revisão em baixa – mas venho simplesmente lembrar que o “populismo” de dizer que o dinheiro faz falta noutras coisas não pode esquecer que nestes casos sem despesa, que é afinal investimento, não há retorno, há paralisia.
Hoje temos um CCB, temos um Parque das Nações, alguns estádios aptos para grandes competições (e alguns sem utilidade, é verdade), um retorno económico da Web Summit e provavelmente agora nascerá um território mais saudável em Loures. Teríamos alguma destas coisas se não tivéssemos ido para a frente com os tais “despesismos”?
Claro que há muita pobreza no nosso país – como em todos, aliás – mas estes despesismos trazem benefícios futuros e comparados com o país que tem mais Lamborghinis, Ferraris, Teslas, etc “per capita” que não trazem qualquer benefício a não ser para a vaidade de alguns, não é nada de especial. E mesmo que os valores que se vão disponibilizar para este evento fossem utilizados no combate à pobreza, embora ajudassem, não acabariam com a mesma pobreza. A burocracia “comia” uma parte, a logística “comia” outra parte e a corrupção “comeria” mais um bocado e restaria uma amostra para chegar aos verdadeiros pobres, embora a propaganda viesse com grandes parangonas a dizer que foi investido o valor total no combate à pobreza.
Apetece dizer como o nosso grande Fernando Pessoa “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”, e neste caso até parece que Deus quis aqui as JMJ 2022, a Igreja Católica Portuguesa sonhou e a obra vai nascer.
Eu sou a favor do investimento nas JMJ 2022, claro que com alguma redução nos custos, mas sem perder a dignidade de um grande acontecimento mundial que prestigie o nosso Portugal como país laico na sua Constituição mas, sem dúvida, de raiz cristã católica.