Como sabem eu sou católico. E também sabem que eu sou de Matosinhos. Também eu sei que “ninguém é profeta na sua terra”. Também penso que devemos ser críticos ao apreciar o que os nossos sentidos absorvem. Mas vamos ao assunto que me faz escrever hoje: anteontem – e esperei 48 horas para repousar o efeito emocional – fui com um grupo visitar a Igreja de Santa Maria, no Marco de Canavezes, cujo traço se deve ao Arquitecto Siza Vieira. Desde a sua inauguração há 20 anos até aos dias de hoje tenho ouvido muitos “dizer mal” e alguns “dizer bem” e a curiosidade foi crescendo dentro de mim e agora acabei de a matar. Vou juntar a minha opinião às milhentas que provavelmente já ouviram.
Cheguei ao adro e achei o monumento um autêntico “bunker” com uma super porta e procurei os sinos para ter a certeza de que era uma Igreja. Chumbaria o projecto logo pelo aspecto exterior. Que tristeza: eu católico e a não gostar de uma igreja desenhada por um dos mais ilustres conterrâneos. Fica-se desmoralizado. Depois entrei com o grupo e com um guia para nos explicar o que víamos na igreja e na capela mortuária que existe na cave, separada por três lanços de 12 a 15 degraus (há uma entrada directa sem escadas). Quando a visita explicada terminou a minha moral, derrotada no princípio, saiu em alta por duas razões: “estava lá tudo o que é necessário para nos acolher espiritualmente sem nos distrair” e o Arquitecto tinha-me surpreendido pela positiva. Siza Vieira fez o risco que em termos técnicos não deve ter sido dos mais trabalhosos mas em termos de religião deve ter-lhe ocupado longas horas de estudo. Depois adaptar o que estudou sobre a religião ao projecto deve ter sido bem mais trabalhoso. Um simples exemplo: aquela “estapafúrdia” porta principal com 3 metros de largura e 10 metros de altura tem uma justificação: 3 significa a Santíssima Trindade e o 10 diz respeito aos 10 Mandamentos!!! Mas tudo, ou quase tudo, tem um explicação e se eu tivesse entrado naquela igreja sem um guia tê-la-ia achado nua e sem calor afectivo. E se há momento em que eu gosto de estar numa igreja é quando sou o único a estar presente, e nesta Igreja de Santa Maria tive essa oportunidade quando todos saíram. Um pormenor: na pia baptismal a água transborda e…quando o silêncio é absoluto consegue-se ouvir em toda a igreja, e inclusive na casa mortuária da cave, o som do correr da água. Para mim, inacreditável. Vou rematar para não cansar. O tanto que muda entre uma visita simples e uma visita guiada! Como católico se a Igreja fosse na minha cidade – e tenho a mais bela Igreja Matriz – também me sentiria feliz nela. Quanto ao meu conterrâneo que a concebeu, na minha opinião, está de parabéns. Já não estou zangado nem com a Igreja do Marco nem com o Arquitecto, mas respeito muito todas as opiniões. Ah…se puderem e lá passarem, tentem conseguir uma visita guiada. Não se arrependerão, penso eu.