Como evoluiu o “FILHO DA P…”

AS PALAVRAS TÊM VIDA?

Hoje ouvi uma mãe a chamar por um filho mas não pelo seu nome e fiquei a pensar sobre a vida das palavras.

Não andei na Faculdade de Letras e tive aulas de Língua Portuguesa só até aos 14 anos mas acredito que, tal como a vida do dia-a-dia, também a palavra evoluiu. Evoluiu na escrita, na fonética e evoluiu noutras áreas incluindo a social. Logo se evoluiu é porque tem vida. Ora aqui é que está a diferença pois tem vida mas não é um ser vivo. A palavra falada não existe materialmente, é imaterial, mas é real no momento em que é dita e a palavra escrita ou desenhada existe só porque se lê e se vê mas o que existe materialmente é a tinta que a escreve e o material em que é escrita. Isto não é rigoroso, provavelmente, mas para mim faz sentido. Vamos pois à evolução do que eu ouvi hoje.

Quando eu fui EDUCADO pelos meus Pais e ENSINADO pelos meus Professores – hoje não é bem assim, mas também é a evolução – quando alguém dizia “filho da p…” era um malcriado e era punido pelos Pais, ou levados ao Director pelos Professores ou admoestado por uma Autoridade se fosse na via pública e, por vezes, era alvo de queixas no tribunal com a garantida condenação.  Mas estamos a falar de 65/70 anos atrás. Veio a evolução e a simples expressão que violentava o atingido passou a ser usada como “calão” e não como ofensa, para uns mas não para outros. E assim hoje ouvi uma mãe a chamar um filho, de talvez 12/13 anos, que estava a desobedecer dizendo só:

“oh meu filho da p… anda já aqui à mãe” e o miúdo cumpriu e dirigiu-se àquela mãe. E concluí que afinal se a mãe  usava a expressão contra si própria e achava que devia chamar assim o filho ele, provavelmente, passará a chamar isso normalmente a qualquer pessoa como calão. Mas não fica por aqui a evolução e assim já me parece que quando as “coisas aquecem” e o atingido pelo epíteto leva o assunto a tribunal já tem a hipótese de não ganhar nada com isso por não ser crime mas ser simplesmente um “desabafo”. E a outra evolução é quando alguém quer elogiar uma pessoa muito competente na sua profissão ou na sua arte e usa a expressão como sujeito e diz com naturalidade: “o filho da p…” é genial”. 

Deixo-vos a pensar noutras evoluções porque eu não pretendi ser exaustivo, mas aquilo que era uma grande ofensa – para alguns ainda é – evoluiu para um calão a funcionar como nominativo ou para um desabafo – que “simpático” desabafo – e ainda como veículo para um grande elogio!!!

E isto não tem nada a ver com o acordo ortográfico – que eu tenho guardado num quarto escuro – mas sim com o trato que o ser humano dá às PALAVRAS fazendo com que elas “tenham vida sem serem seres vivos”.

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