2020 COVID 2021 – Balanço

2 0 2 0                                 COVID 19                           2 0 2 1

Vou acabar este tema para vos fazer um balanço do ano sob o ponto de vista do COVID 19 e o que trouxe de relevo para a minha vida e da família que me rodeia mais de perto.

Como podem calcular a pandemia alterou a vida da maior parte das pessoas. E eu não sou excepção mas o efeito na minha vida foi, por incrível que pareça, mais positivo que negativo, pois mudou estruturalmente o bem estar da minha família. Perante tantas mortes e tantas desgraças económicas e sociais até parece heresia eu ter encontrado pontos mais positivos que negativos, mas mentiria se não o dissesse ainda que a quente. Mas vamos a factos muito resumidos. 

ALEXANDRINA: desde Maio de 2018 que frequenta o Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) da APPACDM na Maia. Todos os dias a levo às 10,00 e vou busca-la às 16,45 de segunda a sexta. Sente-se feliz e passo a pagar por fora os sábados porque ela adora estar lá. Andamos a adiar a experiência de dormir lá no Lar, uma ou outra noite, durante mais de meio ano. Veio o COVID 19 e o CAO fechou em Março, Abril, Maio e Junho e a Alex em casas fez uma depressão e teve de mudar a medicação. E nós desesperados a protege-la mas sem meios de a alegrar. 

Fomos um dia ao Lar reunir com a direcção e…milagre… havia uma vaga para preencher e foi-lhe logo atribuída. Saímos dali como nos tivesse saído o euromilhões. Depois de dois testes negativos a nossa princesa no dia 14 de Julho entrou para o Lar. E hoje passados 5 meses e meio o que pensamos: que egoístas fomos estes anos todos, porque ela está mais feliz entre os seus pares que na nossa casa com todo o amor que lhe podíamos dar. Estivemos em visita anteontem e vimos como está feliz e mostrou-nos alegria e carinho por nos ver mas mostrou-nos também como o nosso amor egoísta a estava a castrar. Foi bom ter vindo o COVID 19. Estamos felizes com este capítulo. 

VIVER A DOIS: casamos em Agosto de 1973 e em Maio de 1974 nasceu a nossa Ana, cinco anos depois nasceu o João e em Dezembro de 1996 com 10 meses entrou-nos em casa a Alexandrina. Saiu a Ana em 1998, saiu o João em 2001 e ficou, até Julho deste ano, a Alex. 47 anos de casados e quanto tempo de vida a dois? Os primeiros 9 meses, até Julho passado! Agora estamos a viver só os dois e a reaprender como isso funciona. Como mudou a nossa vida sem ter de fazer 50 Kms por dia com o ir e o vir da Alex que cortava a meio as manhãs e as tardes. Viver a dois é liberdade para ambos e há mais tempo de um para o outro.

Só chegou depois dos 70…mas chegou com a graça de Deus.

A MINHA IRMÃ: não sei como hei-de começar este tema. A minha Irmã é mais velha 1 ano que eu, e está divorciada sem filhos desde os anos 70, nos anos 90 a sua profissão acabou (despachantes de alfândega). Em 2005 a nossa Mãe morreu e a única retaguarda directa sou eu. A viver sozinha com dificuldades financeiras com algum grau de doença (cega de um dos olhos, insuficiência cardíaca e respiratória e por vezes renal) tomando cortisona há 45 anos não teve vida fácil. Com um feitio difícil especialmente para os mais chegados a vida tem sido difícil para ela e por tabela para mim. Nos últimos dois anos passou por diversos internamentos de 2 e 3 semanas e vem sempre recauchutada e cheia de vida desprezando apoios e conselhos. De seguida cai a pique e é um caos. 

Há dois anos que lhe sugiro a entrada para um Lar. Hoje estando em baixo procura e contacta lares, amanhã na mó de cima que ninguém lhe fale em lares. Agora em Novembro encontrei uma vaga num Lar de uma IPSS e garantia-a a partir de Dezembro. Ela teve uma recaída e pediu-me por tudo para ir para um Lar mas teve de ir para o hospital. Veio renovada e cheia de vida e por favor não se fala em lares. Veio o meu COVID 19 e contagiei-a felizmente assintomática. Não pude vigiar os passos dela nem a sua medicação. Tive alta e foi a minha primeira visita e vi o caos. Ajudei no que pude e entrei em stress. Não pensei que as coisas piorassem tanto. Hoje estou a tomar o pequeno almoço e a associação que lhe faz a higiene e lhe serve as refeições diariamente e telefona-me a dizer que a encontrou no chão sem se poder levantar. Corro para lá e estão três pessoas da Associação (o Presidente e a Assistente Social, diretora e a funcionária que ia fazer a higiene) – como eu estou agradecido a estas pessoas!!! e tomamos conta do caos. A minha Irmã pede para ir para o Lar. Todos apoiam a ideia e ela reforça o pedido. Contacta-se o Lar e abre-se a excepção protocolar de admissão. Contacta-se os bombeiros e prepara-se a medicação e alguma roupa e segue-se para o Lar que estava já pago há uma semana, sem ter a garantia que ela algum dia aceitasse entrar – para assegurar a reserva do lugar, tal a escassez do mercado. Manhã de fim de um ano atípico absolutamente parecido com um vulcão. Que vos dizer de um ano COVID 19? A minha vida julgo que nunca teve um ano tão radical. Sou quase um herege mas tenho que dizer que a balança COVID 19 me fez sofrer muito mas o saldo parece-me positivo. Como veem eu não fiz nada para que tudo isto acontecesse mas a verdade é que Alguém fez acontecer. Quando a fé é grande, consegue-se ver coisas positivas até no sofrimento, na angústia, na ansiedade e, porque não dizê-lo, até no medo ou no respeito.  

Desculpem tê-los maçado mas este mês de Dezembro foi verdadeiramente alucinanate e a manhã de hoje nem se fala.

Prometido: tão cedo não falo de mim. Obrigado e um bom 2021

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *